sábado, 19 de Maio de 2012 Entrar
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Comunicação para o Seminário “ Para além dos Muros do Hospital – A Comunidade “

Antes de mais queria cumprimentar o professor Dr. Nuno Grande, o professor Dr. António Marques e o Dr. Mário Vieira, e agradecer em nome da Santa Casa da Misericórdia da Maia o convite que nos foi dirigido para hoje comemorar convosco o dia Mundial da Saúde Mental.


Vou-vos falar um pouquinho da experiência dos gabinetes de emprego da Santa Casa ao nível da empregabilidade de pessoas com doenças mentais e nomeadamente das dificuldades que temos sentido com este público - alvo específico.


 O emprego, na nossa sociedade constitui um elemento fundamental na vida e no quotidiano dos indivíduos. A situação de desemprego, ou de procura do primeiro emprego, abala estruturas que se tornaram essenciais na vida dos trabalhadores, quer seja a gestão do tempo, as rotinas, as redes sociais que se criam no emprego, o estatuto adquirido, etc.


Na actualidade, o trabalho desempenha um papel central na coesão das sociedades industrializadas, as pessoas não dependem dele apenas para seu sustento, mas também para adquirirem e desenvolverem capacidades de trabalho, para construírem de certa forma a sua identidade, para estabelecer laços sociais, ter projectos de futuro, sentir realização pessoal, progredir na esfera do trabalho e também na sociedade. E por isso o acesso ao mercado de trabalho é uma contribuição importante na integração e até diferenciação social dos indivíduos, e a situação perante o mercado de trabalho constitui muitas vezes o aspecto fulcral da inclusão ou exclusão socioprofissional dos indivíduos. Sabemos que nem todas as oportunidades de acesso são iguais, mas para grupos desfavorecidos obter um emprego é duplamente mais difícil, porque as circunstâncias da integração dos indivíduos também são diferentes.


Segundo Machado Pais o funcionamento dos mercados de trabalho é que influencia a reinserção dos desempregados e a regulação do mercado de trabalho é feita pelo conjunto de políticas de emprego a curto prazo, como a formação, os contratos de inserção, o apoio a pequenas empresas, medidas de apoio à inserção de determinados grupos, etc. O Estado tenta sempre garantir o bem-estar das populações tentando travar o fenómeno de exclusão social, através de programas específicos, através da dinamização dos sistemas locais de emprego ou mesmo do reconhecimento formal da realidade dos mercados sociais de emprego.


Mas os handicaps específicos dos indivíduos contribuem para agravar as raras oportunidades de emprego. E se para uns os handicaps possam ser a idade, o género, as habilitações literárias, as pessoas com doença mental também contam com este handicap que, embora não seja o único, pode revelar-se como o principal e, por vezes exigem e na minha opinião merecem uma integração específica face à sua condição. Em meu entender as suas dificuldades de inserção profissional ainda passam pelo seu estatuto estigmatizado.


Existem programas de emprego protegido, apoios e incentivos à contratação destas pessoas, por exemplo, o emprego protegido de pessoas com deficiência, medida do IEFP que visa proporcionar a pessoas com deficiência, que possuam capacidade de trabalho igual ou superior a 1/3 da capacidade normal do trabalhador no mesmo posto de trabalho, o exercício de uma actividade remunerada e a sua valorização enquanto cidadão, facilitando sempre que possível a sua transferência para o mercado normal de trabalho. Este pode ser feito em meio normal de trabalho, “os enclaves”. O projecto tipo que inclui estágio em posto de trabalho e o exercício de actividade nas áreas de produção existentes. E todas as outras medidas que se podem revelar como meios facilitadores à integração no mercado de trabalho, contrato emprego - inserção e inserção +, programa de estímulo à oferta de emprego, bolsas de formação de iniciativa do trabalhador, o programa de estágios (Profissionais, Inov-Jovem, em que normalmente os destinatários que sejam portadores de deficiência ou incapacidade não tem limite de idade para se candidatarem e em que as comparticipações financeiras são nestes casos majoradas), e no caso do apoio à contratação, o apoio financeiro é um subsídio não reembolsável, por cada posto de trabalho a criar, igual a 18 vezes o IAS quando preenchido por pessoa com deficiência, existe ainda a atribuição de prémios de igualdade de oportunidades no montante de 10 % do valor total do apoio concedido quando pelo menos 40%dos postos de trabalho criados sejam preenchidos por pessoas com deficiência.
A nossa experiência nos gabinetes de emprego com este público não é muita mas, temos sentido sérias dificuldades em colocar estas pessoas. É difícil encaminha-los para formação, porque normalmente revelam-se instáveis, quer emocionalmente, quer cognitivamente, sinto dificuldade em dar respostas adequadas, e em algumas situações é completamente impossível encaminha-los para formação, o que em alguns casos tentaria para ficarem em situação de maior igualdade perante outros trabalhadores no mercado competitivo. Apesar de alguns mostrarem vontade e desejo de aprender no momento da entrevista pessoal, ao longo da conversa nota-se que as suas expectativas não estão ajustadas à realidade do actual mercado de trabalho, e por vezes revelam incompreensão face ao que estamos a tentar transmitir-lhes. Na maioria dos casos fazemos o encaminhamento para a nossa equipa de psicologia, e tentamos em articulação ver qual será o momento apropriado para preparar a sua procura de emprego e a sua colocação. Sem isso, temos de manter a nossa ética profissional, e não podemos encaminhar pessoas através do nosso serviço que depois não estão preparadas para determinado emprego. Se isso acontecer, o retorno ou feedback dos empresários que nos pediram ajuda, também não vai ser bom. E, na minha opinião, os empresários não estão muito à vontade com a integração destas pessoas na sua empresa, não porque têm doença mental, mas porque pensam que a sua integração pressupõe um processo mais demorado, que pode trazer desvantagens na actividade normal da empresa, que podem ter um menor ritmo e rendimento de trabalho, que pode ser necessário fazerem-se adaptações dos meios e instrumentos de trabalho, porque tendem a ser vistos como trabalhadores não polivalentes nem com capacidade de resposta imediata a determinadas situações novas que possam surgir, e porque pensam logo na necessidade acrescida de acompanhamento constante.


O facto do número de empresas de âmbito nacional que contratam indivíduos com doenças mentais poder ser já significativo, no concelho da Maia suspeito que ainda não o seja, ou se já o é, na minha opinião deveria ser mais ainda. Ainda temos obstáculos a enfrentar enquanto técnicos de emprego que são importantes para a integração profissional destas pessoas. É necessário sensibilizar mais os empresários, organizar respostas para potenciar a integração destas pessoas, quer ao nível da formação/qualificação, ao nível do aumento de competências, e promover um envolvimento e desenvolvimento de âmbito local. É necessária participação e envolvimento nesta problemática, criação de redes de cooperação, parcerias entre entidades, criação de actividades que promovam o bem-estar destas pessoas com vista à sua reinserção, encontrar as oferta adequadas à sua situação, etc. Necessitamos sobretudo de instrumentos de promoção de empregabilidade focados especialmente no indivíduo e não a partir de respostas normalizadas. Acima de tudo soluções criativas, contextualizadas e individualizadas, que contem com a articulação de várias intervenções. Porque as pessoas portadoras de doenças mentais encaram muitas desvantagens no plano de integração profissional, quer pelo estigma, quer pela perda de laços, pela incapacidade de manter um emprego estável e o número insuficiente de respostas, de mais programas de apoio específico à formação e integração profissional, o que implica um esforço redobrado não só dos indivíduos como de outros agentes e recursos para que seja possível dar este passo. É necessário um esforço conjunto para que a sua integração no mercado de trabalho seja possível.


No centro Comunitário de Vermoim/Sobreiro, recebemos pessoas que nos procuram por iniciativa própria ou que vêm encaminhadas por outros serviços ou outros técnicos. Fazemos um trabalho transversal, que passa pelo apoio social, apoio socioeducativo, psicológico, apoio ao nível da satisfação de necessidades básicas, como a alimentação, higiene pessoal, tratamento de roupas, fornecimento de roupa e artigos de higiene, entre outros.


No âmbito do emprego, a Misericórdia já presta apoio às pessoas desempregadas e à procura de emprego desde 1994, com o Clube de Emprego no Centro Comunitário de Vermoim/Sobreiro e com a UNIVA no Centro Comunitário de Vila Nova da Telha desde 2003. Recentemente foram aprovados e criados os Gabinetes de Inserção profissional, e embora as pessoas com doenças mentais não sejam o nosso público específico, quando nos procuram, tentamos sempre acompanhá-los, fazendo o diagnóstico da sua situação e articulando as suas necessidades com as necessidades do tecido empresarial.


Obrigada!

 

Comunicação para o Seminário “ Para além dos Muros do Hospital – A Comunidade “

Antes de mais queria cumprimentar o professor Dr. Nuno Grande, o professor Dr. António Marques e o Dr. Mário Vieira, e agradecer em nome da Santa Casa da Misericórdia da Maia o convite que nos foi dirigido para hoje comemorar convosco o dia Mundial da Saúde Mental.


Vou-vos falar um pouquinho da experiência dos gabinetes de emprego da Santa Casa ao nível da empregabilidade de pessoas com doenças mentais e nomeadamente das dificuldades que temos sentido com este público - alvo específico.


 O emprego, na nossa sociedade constitui um elemento fundamental na vida e no quotidiano dos indivíduos. A situação de desemprego, ou de procura do primeiro emprego, abala estruturas que se tornaram essenciais na vida dos trabalhadores, quer seja a gestão do tempo, as rotinas, as redes sociais que se criam no emprego, o estatuto adquirido, etc.


Na actualidade, o trabalho desempenha um papel central na coesão das sociedades industrializadas, as pessoas não dependem dele apenas para seu sustento, mas também para adquirirem e desenvolverem capacidades de trabalho, para construírem de certa forma a sua identidade, para estabelecer laços sociais, ter projectos de futuro, sentir realização pessoal, progredir na esfera do trabalho e também na sociedade. E por isso o acesso ao mercado de trabalho é uma contribuição importante na integração e até diferenciação social dos indivíduos, e a situação perante o mercado de trabalho constitui muitas vezes o aspecto fulcral da inclusão ou exclusão socioprofissional dos indivíduos. Sabemos que nem todas as oportunidades de acesso são iguais, mas para grupos desfavorecidos obter um emprego é duplamente mais difícil, porque as circunstâncias da integração dos indivíduos também são diferentes.


Segundo Machado Pais o funcionamento dos mercados de trabalho é que influencia a reinserção dos desempregados e a regulação do mercado de trabalho é feita pelo conjunto de políticas de emprego a curto prazo, como a formação, os contratos de inserção, o apoio a pequenas empresas, medidas de apoio à inserção de determinados grupos, etc. O Estado tenta sempre garantir o bem-estar das populações tentando travar o fenómeno de exclusão social, através de programas específicos, através da dinamização dos sistemas locais de emprego ou mesmo do reconhecimento formal da realidade dos mercados sociais de emprego.


Mas os handicaps específicos dos indivíduos contribuem para agravar as raras oportunidades de emprego. E se para uns os handicaps possam ser a idade, o género, as habilitações literárias, as pessoas com doença mental também contam com este handicap que, embora não seja o único, pode revelar-se como o principal e, por vezes exigem e na minha opinião merecem uma integração específica face à sua condição. Em meu entender as suas dificuldades de inserção profissional ainda passam pelo seu estatuto estigmatizado.


Existem programas de emprego protegido, apoios e incentivos à contratação destas pessoas, por exemplo, o emprego protegido de pessoas com deficiência, medida do IEFP que visa proporcionar a pessoas com deficiência, que possuam capacidade de trabalho igual ou superior a 1/3 da capacidade normal do trabalhador no mesmo posto de trabalho, o exercício de uma actividade remunerada e a sua valorização enquanto cidadão, facilitando sempre que possível a sua transferência para o mercado normal de trabalho. Este pode ser feito em meio normal de trabalho, “os enclaves”. O projecto tipo que inclui estágio em posto de trabalho e o exercício de actividade nas áreas de produção existentes. E todas as outras medidas que se podem revelar como meios facilitadores à integração no mercado de trabalho, contrato emprego - inserção e inserção +, programa de estímulo à oferta de emprego, bolsas de formação de iniciativa do trabalhador, o programa de estágios (Profissionais, Inov-Jovem, em que normalmente os destinatários que sejam portadores de deficiência ou incapacidade não tem limite de idade para se candidatarem e em que as comparticipações financeiras são nestes casos majoradas), e no caso do apoio à contratação, o apoio financeiro é um subsídio não reembolsável, por cada posto de trabalho a criar, igual a 18 vezes o IAS quando preenchido por pessoa com deficiência, existe ainda a atribuição de prémios de igualdade de oportunidades no montante de 10 % do valor total do apoio concedido quando pelo menos 40%dos postos de trabalho criados sejam preenchidos por pessoas com deficiência.
A nossa experiência nos gabinetes de emprego com este público não é muita mas, temos sentido sérias dificuldades em colocar estas pessoas. É difícil encaminha-los para formação, porque normalmente revelam-se instáveis, quer emocionalmente, quer cognitivamente, sinto dificuldade em dar respostas adequadas, e em algumas situações é completamente impossível encaminha-los para formação, o que em alguns casos tentaria para ficarem em situação de maior igualdade perante outros trabalhadores no mercado competitivo. Apesar de alguns mostrarem vontade e desejo de aprender no momento da entrevista pessoal, ao longo da conversa nota-se que as suas expectativas não estão ajustadas à realidade do actual mercado de trabalho, e por vezes revelam incompreensão face ao que estamos a tentar transmitir-lhes. Na maioria dos casos fazemos o encaminhamento para a nossa equipa de psicologia, e tentamos em articulação ver qual será o momento apropriado para preparar a sua procura de emprego e a sua colocação. Sem isso, temos de manter a nossa ética profissional, e não podemos encaminhar pessoas através do nosso serviço que depois não estão preparadas para determinado emprego. Se isso acontecer, o retorno ou feedback dos empresários que nos pediram ajuda, também não vai ser bom. E, na minha opinião, os empresários não estão muito à vontade com a integração destas pessoas na sua empresa, não porque têm doença mental, mas porque pensam que a sua integração pressupõe um processo mais demorado, que pode trazer desvantagens na actividade normal da empresa, que podem ter um menor ritmo e rendimento de trabalho, que pode ser necessário fazerem-se adaptações dos meios e instrumentos de trabalho, porque tendem a ser vistos como trabalhadores não polivalentes nem com capacidade de resposta imediata a determinadas situações novas que possam surgir, e porque pensam logo na necessidade acrescida de acompanhamento constante.


O facto do número de empresas de âmbito nacional que contratam indivíduos com doenças mentais poder ser já significativo, no concelho da Maia suspeito que ainda não o seja, ou se já o é, na minha opinião deveria ser mais ainda. Ainda temos obstáculos a enfrentar enquanto técnicos de emprego que são importantes para a integração profissional destas pessoas. É necessário sensibilizar mais os empresários, organizar respostas para potenciar a integração destas pessoas, quer ao nível da formação/qualificação, ao nível do aumento de competências, e promover um envolvimento e desenvolvimento de âmbito local. É necessária participação e envolvimento nesta problemática, criação de redes de cooperação, parcerias entre entidades, criação de actividades que promovam o bem-estar destas pessoas com vista à sua reinserção, encontrar as oferta adequadas à sua situação, etc. Necessitamos sobretudo de instrumentos de promoção de empregabilidade focados especialmente no indivíduo e não a partir de respostas normalizadas. Acima de tudo soluções criativas, contextualizadas e individualizadas, que contem com a articulação de várias intervenções. Porque as pessoas portadoras de doenças mentais encaram muitas desvantagens no plano de integração profissional, quer pelo estigma, quer pela perda de laços, pela incapacidade de manter um emprego estável e o número insuficiente de respostas, de mais programas de apoio específico à formação e integração profissional, o que implica um esforço redobrado não só dos indivíduos como de outros agentes e recursos para que seja possível dar este passo. É necessário um esforço conjunto para que a sua integração no mercado de trabalho seja possível.


No centro Comunitário de Vermoim/Sobreiro, recebemos pessoas que nos procuram por iniciativa própria ou que vêm encaminhadas por outros serviços ou outros técnicos. Fazemos um trabalho transversal, que passa pelo apoio social, apoio socioeducativo, psicológico, apoio ao nível da satisfação de necessidades básicas, como a alimentação, higiene pessoal, tratamento de roupas, fornecimento de roupa e artigos de higiene, entre outros.


No âmbito do emprego, a Misericórdia já presta apoio às pessoas desempregadas e à procura de emprego desde 1994, com o Clube de Emprego no Centro Comunitário de Vermoim/Sobreiro e com a UNIVA no Centro Comunitário de Vila Nova da Telha desde 2003. Recentemente foram aprovados e criados os Gabinetes de Inserção profissional, e embora as pessoas com doenças mentais não sejam o nosso público específico, quando nos procuram, tentamos sempre acompanhá-los, fazendo o diagnóstico da sua situação e articulando as suas necessidades com as necessidades do tecido empresarial.


Obrigada!

 

 
 
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